Treinamento em jejum melhora a performance?

Treinamento em jejum melhora a performance?

Por Dr Enzo Studart

O treinamento em jejum tem ganhado espaço nas conversas entre atletas de endurance e profissionais da saúde esportiva. A lógica é relativamente simples: ao treinar sem ingestão prévia de carboidratos, o organismo é levado a utilizar mais gordura como fonte de energia, o que pode promover adaptações metabólicas com potencial de melhorar a resistência aeróbia.

De fato, estudos mostram que o exercício em jejum aumenta a oxidação de lipídios durante a atividade, um achado consistente em diferentes contextos. Além disso, protocolos específicos como o chamado train-low ou sleep-low — em que o atleta treina com baixa disponibilidade de carboidrato e mantém esse estado até a sessão seguinte — parecem estimular vias mitocondriais relacionadas à resistência. Isso reforça a ideia de que, em algumas situações, manipular a disponibilidade de energia pode gerar estímulos diferentes dos treinos tradicionais.

No entanto, quando analisamos o conjunto de evidências, o cenário não é tão favorável. Revisões que reuniram diversos estudos com atletas de endurance mostram que treinar em jejum, na maioria das vezes, não melhora a performance final em provas ou sessões longas. Na prática, fazer uma refeição antes do exercício ajuda a manter a intensidade e a energia por mais tempo, especialmente em treinos acima de uma hora. 

Já o treino em jejum pode ser útil em sessões mais curtas ou leves, mas aumenta o risco de o atleta “ficar sem combustível” justamente quando precisa sustentar ritmos fortes. Isso levanta uma questão importante: será que o ganho em oxidação de gordura compensa a possível perda de qualidade nos treinos? Afinal, intensidade é um dos principais estímulos para evolução no endurance, e qualquer estratégia que reduza a capacidade de treinar forte pode comprometer os resultados. É aqui que entra a visão crítica da ciência: adaptações moleculares nem sempre se traduzem em desempenho competitivo melhor.

Outro ponto de atenção é o risco de déficit energético. Treinar em jejum com frequência pode levar o atleta a gastar mais energia do que consegue repor ao longo do dia. Esse desequilíbrio vem ganhando grande espaço nas discussões científicas, e é chamado de RED-S (Deficiência Energética Relativa no Esporte). Essa síndrome pode impactar hormônios, recuperação, saúde óssea e até aumentar o risco de lesões. Por isso, o treino em jejum não deve ser usado de forma contínua ou sem orientação, mas sim planejado e acompanhado por profissionais.

Em resumo, o treinamento em jejum deve ser encarado como uma ferramenta, não como uma regra geral. Pode trazer benefícios pontuais — maior flexibilidade metabólica, estímulos celulares diferentes e até melhora de desempenho em protocolos específicos —, mas não substitui a importância de treinar bem alimentado quando o objetivo é intensidade e performance máxima. A individualização e periodização são fundamentais. O desafio está em equilibrar os possíveis ganhos do jejum com a necessidade de manter treinos de qualidade e preservar a saúde do atleta.

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