O que os exames de sangue revelam sobre a saúde e a performance dos atletas olímpicos
12 de novembro de 2025
Atletas olímpicos costumam ser vistos como o retrato máximo de saúde e desempenho físico. Corpos precisos, metabolismos afinados e uma rotina de treinos meticulosamente planejada fazem parte do imaginário que cerca o esporte de elite. No entanto, um estudo recente publicado no Journal of Science and Medicine in Sport (2025) mostrou que, mesmo no topo do rendimento humano, há desequilíbrios fisiológicos importantes que merecem atenção. A pesquisa analisou exames bioquímicos de 2.525 atletas olímpicos, de diferentes modalidades, avaliados entre os Jogos de Londres 2012 e Paris 2024. Os resultados desafiam a ideia de que o alto desempenho equivale, automaticamente, à saúde perfeita.
Os atletas foram divididos conforme o tipo de esporte praticado — potência, habilidade, endurance e misto — e passaram por uma bateria de exames hematológicos e bioquímicos que incluíam parâmetros de ferro, glicose, colesterol, cortisol, eletrólitos e função tireoidiana. O objetivo era entender a prevalência de alterações metabólicas e hormonais e investigar se o tipo de modalidade, o sexo e o perfil de treino influenciavam esses marcadores.
Os resultados chamaram atenção: 62,6% dos atletas apresentaram pelo menos uma anormalidade nos exames laboratoriais. As alterações mais comuns foram dislipidemia (20,4%), níveis elevados de cortisol (15%), deficiência de ferro (9,7%) e intolerância à glicose (8,4%). Mesmo em indivíduos altamente treinados, o estudo revelou que o organismo pode apresentar sinais de estresse fisiológico, desequilíbrio nutricional e risco metabólico. Esses achados reforçam a importância do acompanhamento clínico e laboratorial constante, especialmente em períodos de carga intensa de treino e competição.
As diferenças entre os sexos também foram marcantes. As mulheres apresentaram uma prevalência significativamente maior de deficiência de ferro (16,5% contra 4,2% nos homens) e níveis mais altos de cortisol, hormônio associado ao estresse e ao catabolismo muscular. Já os homens mostraram maior incidência de colesterol elevado e intolerância à glicose — fatores de risco cardiovascular e metabólico que, embora sutis em atletas jovens, podem ter impacto cumulativo ao longo da carreira esportiva. De forma interessante, os atletas de esportes de habilidade, como golfe, tiro e ginástica artística, foram os que mais apresentaram alterações metabólicas, superando inclusive os de endurance. Essa diferença pode estar relacionada a menores volumes de treino aeróbico, dietas menos ajustadas ou variações na composição corporal entre as modalidades.
Os autores destacam que o cortisol elevado, observado em 15% dos atletas, provavelmente reflete o estresse fisiológico imposto pelo treinamento intenso e pelas competições de alto nível. A exposição prolongada a níveis elevados desse hormônio pode afetar negativamente a recuperação muscular, o sistema imunológico e o metabolismo de lipídios e glicose — fatores que, em longo prazo, podem comprometer o rendimento e aumentar o risco de lesões e fadiga crônica. Já a deficiência de ferro, especialmente entre mulheres, continua sendo uma preocupação recorrente. Além de comprometer a oxigenação tecidual, o ferro é essencial para o metabolismo energético e para o desempenho aeróbico. Baixos níveis de ferritina, mesmo sem anemia instalada, podem causar queda de performance, sensação de cansaço e recuperação lenta.
Outro dado relevante é a presença de marcadores cardiometabólicos alterados em um número expressivo de atletas. O estudo identificou mais de 800 casos com algum fator de risco cardiovascular, como dislipidemia, triglicerídeos elevados ou intolerância à glicose. Essa constatação reforça que o desempenho atlético não elimina a necessidade de vigilância sobre saúde metabólica. Esportistas de elite, assim como amadores, estão sujeitos a padrões alimentares inadequados, estresse fisiológico crônico e, em alguns casos, deficiências nutricionais que podem gerar repercussões metabólicas importantes.
A pesquisa também mostrou que as alterações nos eletrólitos — como cálcio, fósforo, potássio e magnésio — foram frequentes, mas sem diferença significativa entre as modalidades. Isso sugere que fatores individuais, como hidratação, dieta e genética, podem ter mais influência sobre o equilíbrio mineral do que o tipo de esporte praticado. Além disso, foram encontrados casos de síndrome de Gilbert, uma condição benigna associada à elevação leve da bilirrubina, que não representa risco à saúde, mas exige cuidado na interpretação dos exames para evitar diagnósticos equivocados.
Em síntese, o estudo traz uma mensagem clara: mesmo atletas olímpicos, com acompanhamento multidisciplinar de ponta, apresentam uma alta taxa de alterações bioquímicas. Isso não significa que sejam doentes, mas que o corpo de um atleta vive em constante estado de adaptação e, por vezes, de sobrecarga. Os exames laboratoriais, nesse contexto, funcionam como um mapa que revela o custo fisiológico do desempenho.
Para quem pratica esportes de endurance, essa informação é valiosa. Corridas longas, treinos extenuantes e déficits energéticos acumulados podem gerar alterações semelhantes, ainda que em menor escala. Manter um controle periódico por meio de exames bioquímicos é uma ferramenta poderosa para detectar precocemente deficiências nutricionais, disfunções hormonais e sinais de estresse metabólico. Ajustes na alimentação, no descanso e na estratégia de periodização podem ser decisivos para preservar a saúde e sustentar a performance ao longo dos anos.
Em última análise, o estudo reforça uma ideia fundamental: a excelência esportiva não elimina a necessidade de monitoramento clínico, ela a torna indispensável. Cuidar da bioquímica do corpo é parte integrante do treinamento invisível que sustenta todo grande desempenho, seja no pódio olímpico, seja na linha de chegada de uma prova de triatlo.
Matheus Rosa
Referência:
Ferrera A, Di Gioia G, Spinelli A, Fiore R, Zampaglione D, Serdoz A, Squeo MR. Blood test findings in a large cohort of Olympic athletes: a cross-sectional study. J Sci Med Sport. 2025 Jul 8:S1440-2440(25)00192-6. doi: 10.1016/j.jsams.2025.07.002. Epub ahead of print. PMID: 40681409.
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