Kona 2025: quando o calor, a potência e a fisiologia se encontram no limite
15 de outubro de 2025
Dr. Paulo Puccinelli, Médico do Esporte
O Mundial de Ironman em Kona 2025 foi, mais uma vez, um laboratório vivo do que acontece quando a performance humana enfrenta o extremo. Sob temperaturas que passaram dos 32 °C, com umidade próxima dos 70% e vento alternando rajadas frontais e laterais, até as maiores estrelas sentiram o peso da Ilha Grande.
Taylor Knibb e Lucy Charles-Barclay, nomes fortíssimos do circuito, começaram em ritmo de título. Lucy, como era esperado, saiu na frente da água mas ao longo do ciclismo já mostrou desgastes físicos principalmente por conta do aumento da temperatura ao longo do dia. Knibb fez uma natação sólida (51min10seg), e liderou por boa parte dos 180 km.
Na hora de botar o pé no chão, o calor transformou a temida Queen K em uma verdadeira fornalha. Lucy abandonou pouco antes do quilômetro 28, completamente sem resposta muscular. Knibb, assumiu a liderança, mas começou a oscilar o ritmo por volta do quilômetro 35 e colapsou a três quilômetros da chegada, vítima clássica de exaustão térmica e desequilíbrio eletrolítico. Enquanto isso, a norueguesa Solveig Løvseth, mais controlada no pedal, manteve a intensidade sob controle e conseguiu sustentar um ritmo regular de 3:55/km na maratona, vencendo a prova com o tempo de 8h28min27s.
Kona é uma prova em que o ciclismo não apenas separa o pelotão — ele define o destino da prova. O trecho entre Waikoloa e Hawi é o ponto mais traiçoeiro: subida longa, vento cruzado e temperatura que sobe rápido. Quem entra nesse setor empolgado costuma sair “cozinhando por dentro”. É o que muitos chamam de burn rate invisível — a combinação de potência alta com calor interno crescente. O glicogênio muscular é consumido mais rápido, o corpo desvia fluxo sanguíneo para a pele para tentar resfriar e sobra menos oxigênio para os músculos. O resultado é simples: a corrida vira um martírio.
Løvseth acertou ao manter uma intensidade controlada, abaixo do limiar, priorizando eficiência aerodinâmica e economia metabólica. Essa decisão permitiu que ela chegasse à maratona ainda com reservas — algo tão desejado, mas raro em Kona.
Com o calor e a umidade tão altos, o suor não evapora com eficiência, impedindo o resfriamento por evaporação. A temperatura central do corpo sobe, e quando o core atinge cerca de 39,5 °C ou mais, o organismo começa a limitar o esforço automaticamente — é a chamada fadiga central induzida pelo calor. Além disso, ocorre o chamado shift cardiovascular: o coração aumenta a frequência para tentar compensar o desvio de sangue para a pele, mas o volume sistólico cai. A cada minuto, menos sangue chega aos músculos ativos, e o consumo efetivo de oxigênio diminui. É por isso que muitos atletas relatam uma sensação de “perda de força” repentina, mesmo mantendo o ritmo ou a potência constantes. Em condições como as de Kona, o consumo de oxigênio pode cair até 10%, e o tempo até a exaustão reduzir em mais de 20% se a hidratação e o resfriamento não forem precisos.
A hidratação adequada começa dias antes da prova — aumento da ingestão de sódio nos dias que antecedem o evento, geralmente entre 3 e 5 g por dia, para expandir o volume plasmático e melhorar a capacidade de resfriamento. Durante a prova, o desafio é equilibrar o volume de fluido ingerido, a concentração de sódio e a taxa de absorção intestinal. Em média, as atletas de elite ingerem de 1 a 1,5 litro de líquido por hora no ciclismo e entre 0,6 e 0,8 litro por hora na corrida, mantendo uma concentração de sódio entre 500 e 1500 mg por hora, dependendo da taxa de suor e do perfil de cada atleta.
Muitas combinam diferentes fontes de carboidratos com maltodextrina, frutose e palatinose, o que permite absorver até 140g de carboidrato por hora sem sobrecarregar o estômago, além de facilitar a absorção de sódio e água. O erro mais comum é ingerir água demais sem eletrólitos, o que dilui o plasma e pode levar à hiponatremia, condição que causa confusão mental e, em casos extremos, colapso. Knibb, por exemplo, relatou após a prova ter sentido dificuldade em manter a ingestão líquida nas últimas duas horas do pedal, o que provavelmente antecipou a falha termorregulatória no fim da maratona.
Além da hidratação, muitas atletas recorrem a técnicas de resfriamento durante a prova. Coletes de gelo na transição, manguitos e bonés refrigerados, sachês de gelo nos bolsos e até o clássico “gelo por dentro da roupa” são estratégias comuns. Essas medidas ajudam a retardar o aumento da temperatura central.
O recado da ilha é simples e brutal: não há potência que resista a um corpo superaquecido. O desempenho em Kona é menos sobre ser o mais forte e mais sobre controlar a degradação. Saber dosar intensidade, adaptar a ingestão de líquidos e respeitar o calor são as variáveis que realmente decidem o pódio. Løvseth venceu porque entendeu isso — transformou ciência em estratégia.
Para quem sonha cruzar a linha de chegada em Ali’i Drive, a lição é clara: Kona não é apenas sobre competir. É sobre entender os limites da fisiologia e jogar com eles, não contra eles.
Para os triatletas amadores, o aprendizado de Kona vai muito além de analisar a performance das atletas de elite. A prova mostra, de forma nua e crua, que respeitar o calor, planejar a hidratação e controlar o ritmo são habilidades tão valiosas quanto pedalar forte ou correr rápido. O corpo tem limites bem definidos — e entender suas próprias respostas ao esforço, planejar e testar em treinos são as chaves para evolução.
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